Capítulo 1: Saída Limpa
O estúdio da Vila Madalena cheira a café novo e eletricidade. Quarenta funcionários movimentam-se entre as estações de gravação, cada um com fone de ouvido e uma planilha no tablet. A iluminação já está no ponto três horas antes do horário de gravação, e eu reviso o roteiro pela nona vez só para sentir que estou no controle.
Dois milhões e duzentas e trinta e nove mil seguidores. Na semana passada passamos de dois milhões e trezentos mil. O número sobe como a maré alta no Alto de Pinheiros, inevitável, sem que ninguém precise remar nada.
Meu estúdio é uma adaptação de uma olaria desativada em dois andares com pé-direito alto, janelas de vidro no segundo e uma parede inteira de plantas que não são falsas, ao menos não ainda. Deixa-se o verde morrer quando se está bem. Deixa-se morrer de propósito quando não se está.
O tripé do câmera principal já está montado, com a luz de preenchimento ajustada para meu tom de pele e o microfone de lapela ligado. A mesa de som está do lado de lá, com Letícia já sentada de calça de alfaiataria bege e camiseta preta. Ela me vê e faz um gesto com a cabeça. Tudo certo.
— Vai ser bom — eu digo.
Ela não responde. Deixa a pergunta pairar. Tudo certo, ou só tudo pronto? Não é a mesma coisa.
O cliente secreto já está no fundo do estúdio, na sala de espera que usamos para consultas particulares. Não aparece no vídeo, nunca aparece. Fica no fundo, de costas para a câmera, como silhueta anônima que qualquer um pode ser. É parte do conceito do episódio. Eu preciso provar para meus seguidores que consultei de tudo: ex-funcionários da Faria Lima, professores da USP, um médico que não quer ser identificado por causa de um processo com o CRM e agora, mais uma silhueta sem nome.
O título do vídeo: "Ele está se apaixonando pela pessoa errada. Aqui está o que você deve fazer."
Preciso mostrar que meu método Saída Limpa é universal. Que não importa quem é o homem, se é um cara da Vila Madalena ou um CEO anônimo de uma marca de moda, o diagnóstico é o mesmo. Eu sei ler o que ninguém mais sabe.
A equipe me entrega o teleprompter com as linhas finais editadas. Eu rodo os olhos e encontro o ritmo.
— Se você chegou até aqui é porque alguém te convenceu de que o amor é difícil. De que é preciso lutar, se esforçar, fazer concessões. Eu vou te contar uma mentira. O amor não é difícil. Você é que está se apaixonando por quem é o problema.
O cliente fala. Não revela o nome. Não revela a profissão. Diz que se apaixonou e só agora percebe que a pessoa não é quem diz ser, que os detalhes não somam, que algo não fecha. Tem uma pausa. Diz que está confuso.
Pergunto, como no roteiro, quantos meses. O número sai e eu já sei o que ouvir. Dezessete. Não é um mês. Não é um ano. É exatamente o tempo que se leva para se apaixonar de verdade e o suficiente para o cérebro ter criado todos os mecanismos de defesa.
— O seu problema não é a pessoa — eu digo. — É o tempo.
Ele não responde. Fica com as mãos sobre a mesa. As unhas são limpas, as mãos são cuidadas, o homem gasta dinheiro com isso. Não sou estúpida, sei ler essas coisas antes de abrir a boca. Ele é rico. Ou pelo menos rico de uma forma que não grita, silenciosa, que precisa de quem saiba procurar para ser encontrada.
Fecho o episódio com a frase de encerramento que sempre uso e que se tornou meme em todos os lugares, inclusive no boca a boca das barbearias.
— Você não está apaixonada pelo errado. Você está apaixonada pelo vazio que ele preenche. Fechar essa conta é o primeiro passo para não abrir outra.
Dezessete meses no vazio.
Quando a equipe começa a desmontar o cenário, deixo a câmera rodando mais alguns minutos e vou para a sala de espera. Ele ainda está lá, sentado na poltrona, com uma bolsa de couro marrom que custa mais do que um mês de salário de qualquer pessoa que eu já atendeu.
— O nome não importa — eu digo. — Eu já disse o que precisava.
Ele olha para mim. Um homem de aproximadamente quarenta anos. Cabelo grisalho nas têmporas, sem tinta. Um homem que não se importa em ser visto com as marcas da idade. Roupas discretas, cortadas, sem logotipos visíveis. Alguém que não precisa vender a si mesmo. O tipo de homem que não tem perfil no Rede, que não tem stories, que não tem absolutamente nada publicado e que, por isso mesmo, me fascina como objeto de estudo.
— Eu só queria entender — ele diz. — Queria entender o que há de errado comigo.
— Não há nada de errado com você — eu respondo. — O problema é escolher a pessoa errada é diferente do problema de ser a pessoa errada. Você escolheu mal. O que é comum. O que é humano. Mas o que não é irreversível.
Ele anota isso num caderno. Um caderno de verdade, papel de verdade, caneta de verdade. De quem anota o que ouve. A maioria dos meus clientes não anota. A maioria só ouve. Ele anota.
— Vou marcar a consulta completa para amanhã — eu digo. — Traga o que vier à cabeça. Não traga o que você acha que eu quero ouvir.
Ele sai. A porta fecha. Fico sozinha com o cheiro do perfume dele, seco, sem flores, sem doçura, só almofada e couro. Alguém que já teve dinheiro para o resto da vida e decidiu não gastar com ostentação.
De volta à mesa de gravação, Letícia está sentada com o notebook aberto.
— Três contratos novos — ela diz. — Uma marca de suplemento, uma rede de farmácia e um aplicativo de meditação. São os três. Se fecharem, é o melhor trimestre do ano.
— E se não fecharem?
— Fecham. O de meditação já estava quase pronto, só faltava a gravação do vídeo de hoje. Eu vi o briefing ontem.
Puxo a cadeira e sento. O escritório é o meu espaço de trabalho principal, ao lado da sala de gravação. Há uma parede que dá para o beco da Vila Madalena. Do lado de lá, é um vizinho de quem não sei o nome. O outro lado é vidro para o prédio que é da família de quem não me importo de saber.
Deixei o celular no modo avião até o final da gravação. Agora o abro e vejo que não há mensagens urgentes. Há apenas as notificações automáticas do aplicativo: "Seu vídeo de ontem teve 1,2 milhão de visualizações em 48 horas", "Engajamento acima da média do segmento em 34%", "Comentários positivos: 91%."
91%. É bom. É sempre bom. 100% seria mentira, e eu sei disso melhor do que ninguém.
Letícia me conta mais detalhes sobre os contratos. O de suplemento é o que mais paga, mas é também o que mais exige: três vídeos ao mês, duas lives, menção em cinco stories. A rede de farmácia é mais simples. O de meditação é o que eu mais gosto, porque não exige que eu diga nada que não seja exatamente o que penso, só que em um contexto que ninguém ia me pedir.
— O de meditação é o melhor — eu digo.
— É — Letícia concorda. — E o de suplemento é o que paga mais. Então faz os dois.
Ela fala como quem está acostumada a dividir os dias em dois. Eu também estou. Não é algo que eu tenha escolhido, é algo que aconteceu. Deixei de ser uma pessoa com um único emprego para ser uma pessoa com múltiplos contratos e isso altera tudo. Não só o que você faz, mas o que você pensa enquanto faz.
Só que antes de entrar em qualquer coisa, preciso falar sobre o cliente.
— Letícia. Esse cliente novo que eu atendi hoje. O anônimo. O de dezessete meses. Você notou algo?
— O quê?
— Nada. É uma pergunta sem resposta.
Ela me olha. Eu não sei o que quero que ela responda. Mas a pergunta ficou no ar, como uma bolha, e eu a vejo explodir e não explodir.
— Eu atendo muita gente — ela diz. — Se eu notasse algo em cada cliente, eu não ia funcionar.
— É — eu digo. — É verdade.
A tarde passa devagar. As gravações extras de conteúdo para os stories vão até as cinco. Uma delas é um vídeo curto: "Sinais de que você está se apaixonando por uma sombra." Outro é o clipe de dez segundos que eu uso como perfil no aplicativo: "Você não precisa dele. Você precisa de si mesma. Mas, entre um e outro, eu posso te ajudar a saber a diferença."
São frases que eu já gravei dezenas de vezes. São as frases que me deram tudo. Eu não as relembro. As repito sem esforço. São palavras que já entraram no meu corpo de uma forma tão profunda que viraram função, como respirar ou digerir.
Às seis e meia, quando tudo está limpo e a equipe já foi embora, eu levo um último café com Letícia no escritório.
— A reunião com os três clientes novos é amanhã às nove — eu digo. — Eu preciso dormir cedo hoje.
— Você já está dormindo mal — Letícia diz. — A última vez que dormi bem foi no mês de maio.
— Maio de que ano?
— Não faz diferença. O ponto é que estamos mal. A gente não precisa ser mal. Podemos escolher não ser mal.
— Eu vou dormir — eu digo.
— Você vai deitar e continuar trabalhando.
— É a mesma coisa.
Ela não insiste. Sabe que insistir não muda nada.
Deixo o escritório, desço as escadas e saio pelo fundo do galpão. O beco é estreito, iluminado por lâmpadas de segurança que queimam de cores diferentes. Uma é verde, outra é amarela. Não sei por quê. O dono do imóvel provavelmente não sabe.
Subo no meu carro, um Audi A3 de 2022 que comprei no ano que passei. Nunca gostei de carros grandes demais. Prefiro caber no banco. Prefiro que o carro pareça menor do que a realidade. É uma estratégia de sobrevivência que não explico para ninguém.
A viagem até a casa na Vila Madalena demora doze minutos. Eu conheço cada buraco na pista. Sei onde a polícia prende. Sei onde os motoristas de aplicativo ficam em fila. Sei tudo sobre a cidade como se fosse o endereço de casa, o que, tecnicamente, é.
Entro em casa, deixo as chaves no suporte, e vou direto para a cozinha. Abro a geladeira. Há leite, há pão, há manteiga. Há também uma caixa de biscoito de polvilho que eu comprei em três dias. Eu como um biscoito de polvilho. Não gosto mais. Não gosto mais de nada de verdade. Mas como de qualquer forma, e isso basta.
Sento no sofá da sala com o celular. Vejo que as visualizações do vídeo de hoje já passaram de um milhão e meio. Os comentários estão explodindo. Alguém escreveu "Eu estou nos dezessete meses agora e não vi isso antes" e eu leio a frase duas vezes antes de responder. Respondo com um emoji de coração, o mínimo possível.
A próxima hora é de edição. Preciso cortar três vídeos curtos para postar amanhã de manhã, antes da reunião com os clientes. São vídeos de quarenta segundos que resumo ideias do método Saída Limpa. Dezenas de vídeos assim, com a mesma estrutura, o mesmo enquadramento, a mesma luz. O formato funciona. Funcionar é o mesmo que ser repetitivo. Funcionar é bom.
Termino a edição às nove e meia. Tomo um chá. Sento na varanda e vejo os vizinhos da rua de cima, que têm uma piscina iluminada de azul elétrico. Nunca entendi por que alguém ilumina uma piscina. Não é para ser vista. É para ser sentida. Mas alguém decidiu que é para ser vista.
O celular vibra. É um alerta do aplicativo sobre uma notificação. "Hugo Vane" apareceu entre os perfis que estão assistindo seus vídeos ao vivo.
Fico parada. Hugo Vane. O homem que me contratou quando eu tinha dezenove anos. O homem que me ensinou a estruturar um vídeo, a escolher uma música, a posar para a câmera e a escolher a foto de perfil. O homem que me demitiu quando eu comecei a ganhar mais do que ele. O homem que nunca mais teve a mesma conversa.
O ícone dele está lá, como se eu estivesse na vida de alguém que eu gostaria de esquecer e de lembrar ao mesmo tempo.
Abro o perfil. Ele não tem stories. Não tem vídeos. O perfil é vazio, como o perfil de quem não quer ser visto. Mas está lá. Alguém que não tem nada pra mostrar está assistindo meus vídeos.
Por que Hugo Vane assistiria meus vídeos? Ele não é fã. Nunca foi. É um inimigo educado. Não um inimigo ativo. Alguma coisa mudou. Alguma coisa se reorganizou.
Só que antes de pensar mais sobre isso, a notificação do celular muda e desaparece. Talvez tenha sido um erro de sistema. Ou talvez Hugo Vane tenha mudado de opinião sobre a minha existência e já não esteja mais me observando.
Coloco o celular na mesa de cabeceira. Deito. O teto está escuro e as estrelas não aparecem, só o reflexo da cidade no ar úmido.
Amanhã tem a consulta completa com o cliente anônimo. E tem a reunião com os três contratos. E tem tudo mais que não sei que vai acontecer.
Algo está errado. Não consigo explicar o quê. Talvez seja o fato de eu ter dito ao cliente que "o problema é escolher a pessoa errada é diferente do problema de ser a pessoa errada" e ter sentido isso como uma afirmação sobre mim, e não sobre ele. Talvez seja o fato de Hugo Vane estar assistindo meus vídeos. Talvez seja tudo ao mesmo tempo. Talvez seja nada.
De qualquer forma, vou dormir. Amanhã é o dia de consultar o cliente, de fechar os contratos, de continuar sendo a mulher que sabe tudo sobre relacionamentos e nada sobre si mesma.
Pelo menos até agora.
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